quarta-feira, 27 de julho de 2011

ENTRE A CENSURA E O POLITICAMENTE CORRETO

O filme do momento, graças ao zumbi da censura, parece ser A Serbian Movie – Terror sem Limites. Algumas pessoas vão adorar, pois o nível de gore – palavra em inglês que significa sangue coagulado, mas que é um estilo de arte onde tudo o que causa nojo, asco ou choque é exaltado. Este tipo de expressão artística atende àquela parte de nós que corre para ver um acidente de trem ou um feto jogado no lixo.
Em Bern, na Suíça, na Sérvia e no Rancho Neverland imagens como esta são comuns.

O babado está muito bem explicado na matéria de Ricky Nobre, no Séries, TV e Cinema. A juíza Katerine Jatahy Nygaard determinou a apreensão após o diretório regional do DEM (Democratas) entrar com uma ação contra a exibição do filme. Segundo o Partido Liber... DEM, o filme faria apologia à pedofilia. O diretor do filme Srdjan Spasojevic – doravante chamado de Sopa De Letrinhas para facilitar a digitação – disse que o filme é uma alegoria aos horrores que o povo sérvio enfrentou e foi obrigado a praticar durante a guerra.

Por um lado temos Democratas – ex-Liberais – tentando nos proteger dos horrores de diretores atormentados. Por outro lado, o estupro a composições clássicas de Villa Lobos em nome da decência.

Tragédia no Jardim

O Nelson Rodrigues das canções infantis, Villa Lobos.

Sim, já recebi há muito tempo um e-mail, que eu espero que seja boato, de que o nível de gore nas cantigas infantis precisa ser baixado radicalmente. Segundo os educadores, não podemos manter letras que banalizam a violência doméstica tal como esta:

O Cravo brigou com a Rosa
Debaixo de uma sacada
O Cravo saiu ferido
A Rosa, despetalada.

Essa cantiga realmente sempre me confundiu, pois o Cravo não tem estrutura para despetalar a Rosa. Com todos aqueles espinhos, a Rosa sabe muito bem se defender dos abusos do Cravo. Porém, qualquer mulher em tratamento na AMAD – Associação das Mulheres que Amam Demais – pode atestar, a carência é capaz de aceitar até o abuso como substituto do afeto. Isso fica claro na segunda estrofe da tragédia.

O Cravo ficou doente
A Rosa foi visitar
O Cravo teve um desmaio
A Rosa, pôs-se a chorar.

Mesmo aos cinco anos de idade eu nunca acreditei no desmaio do Cravo. É óbvio que, apesar de seu orgulho chauvinista estar ferido pela última rusga, ele resolveu apelar para o lado fraco da Rosa – sua piedade – e FINGIU o desmaio! Há outra corrente que acredita na fraqueza do Cravo, mas de uma maneira ou de outra, ainda acho que a Rosa fez uma péssima escolha. Ela ainda se apiedava de um cariofiláceo como aquele, sem nenhum caráter, de talo fraco e fino.

No entanto, futuras gerações não terão a oportunidade de construir uma opinião sobre o tema. Educadores se recusam a cantar a tragédia doméstica do Cravo e a Rosa a não ser que a letra seja mudada para:

"o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

Não sei se me incomoda mais a pobreza da rima ou o fato da maioria dos alunos não saber o que é uma sacada.

Devidamente Protegidos

Já estava eu tão apoquentada com a ameaça de decapitação e estupro de obras clássicas pelo obsceno “Politicamente Correto” que me esqueci que fui educada por contos infantis com o selo de aprovação da Sociedade Protetora da Moral e Bons Costumes – da qual os Irmãos Grimm, La Fontaine e Mamãe Ganso eram membros honorários.

Se a sua filha considera isso um caminho seguro, tá na hora contar histórias diferentes para ela.

Na versão original do conto, quem largou João e Maria para se perderem na floresta foram os próprios pais, porque não tinham mais comida para dividir com as crianças. Apesar de João insistir em jogar pedrinhas para achar o caminho de casa, os pais tentaram mais de uma vez, até que finalmente perderam as duas bocas a mais para alimentar. Os dois perambularam pela floresta até achar uma velha solitária que revelou gostar de comer criançinhas – não como Michael Jackson, mas como os comunistas da época. A morte da idosa, cremada em seu próprio forno, foi mantida, como uma proteção para mentes influenciáveis às ideias comunistas ou para criancinhas diabéticas. E a moral perdida desta história era: "Se você é um peso para seus pais, saia de casa mesmo que você só tenha sete anos. Com certeza você vai ter mais chance de encontrar algo melhor fora de casa - dentro, você só vai achar a mesma miséria de sempre. Além do mais, você tem obrigação de respeitar seus pais, mas qualquer outro que se meter contigo, pode jogar no fogo que está tudo certo".

Já a Bela Adormecida não despertou com o beijo de amor coisa nenhuma. Aliás, o príncipe não estava interessado em beijos. Depois de subir à torre do castelo o "príncipe encantado" a engravidou e, em seu coma, a Bela adormecida deu a luz a gêmeos. No conto, os dois procuraram o seio da mãe. Só um achou. O outro bebê sugou o dedo da mãe por engano - justamente o dedo que continha o veneno da roca de fiar - e morreu. Foi ISSO que despertou a Bela Adormecida de seu sono. A moral perdida foi: “Mulher de família rica só presta depois que faz um herdeiro para dar continuidade à família. Se não puder dormir até lá, pelo menos fique quieta e trancada no quarto.”

"Além de tudo, a madrasta nunca assinou minha carteira!"

Chapeuzinho Vermelho encontrou o lobo na cama da vovó. Este lhe disse para tirar os sapatos e jogar na lareira. Ela perguntou o por quê e o lobo disse que era porque ela não precisaria mais deles. Ao invés das perguntas imbecis de "por que a senhora tem olhos tão grandes" que se repetiam. As repetições eram feitas pelas ordens do lobo: "Tire os sapatos, tire o vestido, tire o chapeuzinho...". A moral que infelizmente ficou perdida foi esta: "Sua mãe não manda você seguir pela estrada segura porque é idiota, mas porque tem mais experiência que você. Se algo parece errado e suspeito, dê o fora! Se você realmente não consegue reconhecer o perigo, mesmo que ele esteja na forma de um lobo vestindo uma camisola, então é melhor você morrer mesmo e fazer um favor a Darwin."

Já o príncipe que casou com Cinderella foi mais atencioso com sua amada. Ele enfureceu-se ao saber que a madrasta não quis deixar Cinderella experimentar o sapatinho perdido. Como sentença o príncipe fez a madrasta calçar sapatos de ferro em brasa – os quais ela não pode tirar até morrer. E a moral perdida, mas jamais negada, foi esta: “Então a sua empregada doméstica é uma ninguém e nunca vai ser nada na vida. Cuidado porque o mundo dá volta. Mesmo que ela não seja vingativa, o homem dela pode querer fazer um agrado para ela - com sua cabeça numa bandeja!”.

"Que gosto será que velhinha assada tem?"

Fomos poupados de muitos absurdos dos contos da Era de Trevas. No final quem pagou por isso tudo foram as madrastas, coitadas, que substituíram mães que não valiam nada. Em troca, ficamos com a noção de que mãe é sempre santinha.

As princesas passaram a ser presas na torre por feitiços de bruxas invejosas – e passaram a ser indiscutivelmente belas para justificar essa inveja. Esquecemos por completo de que até as princesas feinhas eram enclausuradas por pais preocupados em resguardar a castidade de uma propriedade que poderia aumentar o território de seu reino ou servir como aliança para evitar guerras.

As meninas burrinhas (tem dó, Chapeuzinho era uma BESTA!) não pagavam por sua burrice com a vida, mas deram origem às vítimas inocentes e inúteis que precisam ser salvas de lobos malvados que, verdade seja dita, precisam se alimentar!

Os príncipes passaram a ser TÃO educados e doces. Eles jamais se tornaram os tiranos que decapitavam traidores e queimavam vilas de cidades inimigas.

Resgatar a vovozinha da barriga do lobo, despertar do coma com um beijo, andar em sapatos feitos de vidro... vidro, não! Cristal!... não fazem sentido nenhum, mas nós nos acostumamos a estes absurdos. Os contos infantis passaram a ser algo que não contribui em nada na arte de “ensaio para a vida”, com suas metáforas soterradas e roteiros mais emendados que colcha de retalhos.

Mas felizmente os substitutos estão aí na vida moderna: o cinema, as séries e a novela.

...

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!

8 comentários:

Victor Augusto de Souza disse...

Patrícia, arrasando mais uma vez como sempre.
Adoro o seu modo atiçado de mostrar outros pontos; concordo com tudo o que você disse.
Estranhamente, filmes de fora não tem essa censura.
Acho que o governo acredita que os brasileiros são muito fracos e somos todos PUROS(totalmente), coitados de nós.
Nem sabemos o que é violência, ainda mais com crianças...

Patrícia Balan disse...

Ainda bem que aqui os jornais não banalizam a violência, né? Nem colocam a foto mais medonha da face da terra do lado de fora da banca na altura dos olhos de crianças que estão indo para a escola.

Renato Rodrigues disse...

Num longíncuo início dos anos 80, um livro desses veio parar na minha mão e eu fiquei de cabelo em pé. "WHAT A FUCK???" pensei eu (Na época em português).

Se não fosse o Disney, o primeiro a "reebotar" esses contos, estas histórias estariam fadadas ao esquecimento (Ihhhh... polêmica!)

Mas o que ele fez já não foi um revisionismo politicamente correto? E se ele não tivesse feito, nunca teríamos os desenhos "Branca de Neve", "Bela Adormecida", "Peter Pan" e etc que atravessaram gerações.

Rapáaa!

Ricky Nobre disse...

O politicamente correto é uma fase que eu creio que seja inevitável, mas é isso, uma fase. O termo também é usado a torto e a direito e perdeu um pouco do sentido original (ainda que esse sentido já fosse meio mala). Acho que tudo muda de acordo com a percepção de cada fase cultural. Ninguém tinha pena de criança, e contar histórias horrendas pra dar um recado não era nada de mais. Adolescência não existia. Você virava adulto de uma hora pra outra e precisava estar preparado e saber que o mundo não é fantasia do dia pra noite. A menina sangrou? Já é mulher, pronto!

Conforme o conceito de criança foi mudando, mudou-se também a idéia do que é adequado ou não para elas. E também é natural que as distorções ocorram, pois, se uma(s) determinada(s) geração(ões) escolheu(ram) o que seria ou não adequado a um novo conceito de criança, é claro que isso foi feito de acordo com os conceitos morais da época. Daí o conteúdo tão questionável que (como Patrícia apontou) continua sendo perpetrado nas capas das revistas femininas.

Não é fácil (pelo menos na minha cabecinha que às vezes pensa demais, às vezes de menos)perceber até que ponto esse policamente correto é ou não tolo. Somos uma cultura machista, racista, homofóbica. É normal que alguns achem que crianças não devam crescer achando natural a violência doméstica, a submissão feminina, a discriminação racial. Por outro lado, cultura não se muda de cima pra baixo, mesmo que a educação seja a chave primordial para isso (e que ela seja controlada, inevitavelmente, por uma elite). Condenar os esteriótipos raciais de Monteiro Lobato é fácil. Proibir, mais fácil ainda. Difícil é colocar isso em perspectiva em sala de aula e por os alunos para discutir.

Mudar a letra de O Cravo e a Rosa?? Tem certeza que é isso que faz as crianças crescerem achando normal a violência doméstica, não é ver o pai batendo na mãe e a família toda botando panos quentes?

O politicamente correto veio em reação a práticas cotidianas corriqueiras que carregavam embutidas preconceitos dos mais diversos. Mas, sendo honesto, qualquer pessoa pode se sentir ofendida por qualquer coisa. Será um equilíbrio muito difícil de conseguir e não será nossa geração que verá isso resolvido.

E lá vai mais um comentário que parece um post. Eddie vai me dar um esporro! Viu o que você fez com esse seu texto maneirão, Patrícia??! :D

Eddie disse...

PORRA, RICARDO!!!!!

Eddie disse...

Além de ter feito um comentário que valia um post, ainda me deixou sem nada pra falar!!!!

Patrícia Balan disse...

Eu amo o Ricardo...

Sandrini disse...

Booooom, eu quando criança adorava essas histórias, Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida, adorava assistir as animações da Disney. Por mais que esses cnotos infantis tenham uma verdade assombrosa por trás do "felizes para sempre", acho importante que essa fantasia seja presente na nossa infância.
Convenhamos, o sonho de toda garota quando criança é o de ser uma princesa. Todo mundo quer que, no final, tudo dê certo e que o amor vença. Depois que crescemos é que temos opniões, vemos as coisas por outros ângulos, e vemos que talvez aquele principe nao valha a pena, e que a mulher também merece batalhar pelo seu.

A canção de O Cravo e a Rosa... eu juro que nunca tinha pensado nessa conotação violenta, até agora. E duvido que muitos tenham notado.

A verdade é que existem crianças, e existem crianças. Cresci vendo minha mãe suspirar na frente da televisão, enquanto olhava para as belas bailarinas de programas aos domingos e me dizer "isso que é corpo bonito, isso que é belo". Hoje, tenho certeza de que beleza não está só na aparência, mas me é muito dificil acreditar que posso ser linda e sensual[?] mesmo sendo baixinha e não tendo as curvas das bailarinas.

Este é um assunto muito delicado, com inumeros pontos de vista. Espero mesmo, Ricky, que seja apenas uma fase de geração.